Poesias, contos e estória nenhuma!

Tuesday, February 13, 2007

Oração para os surdos

Não,não sei da minha posição sexual!
Não sei da minha vizinha. Se ela é evangélica ou se são os seus três cachorros que latem!

Esqueci de contar o tempo quando coloquei meu coração no forno. E ele, óbvio, se aqueceu demais e acabou queimando o dedo daquele que me tocou!

Não falo nada com nada.
Detesto, aliás, quando as coisas fazem sentido!
Sou um reconvexo.
A língua de Luiz de Camões pregada na boceta de Pandora!
"Sou um instantâneo de coisas apanhadas em delito de paixão".
A metamorfose ambulante de Raul impregnada na saia rodada de Mãe Menininha do Gantois.

Odoiá, mãezinha.
Vim me abençoar.
Nas águas serenas do teu mar de Odofiaba!

Ai, quase ía me esquecendo de Nanã.
O canto da solicitude, o sopro do vento rasgado.
A voz que me alimenta a alma e a clareza que me ilumina os dias!

Odoiá, mãezinha.
Inaiê, sereia do Arocá.

Balançam as ondas e a água salgada molha os meus cabelos.
Os meus pés sentem o flutuar das areias por entre as cavidades dos meus dedos!

EU SOU FILHO DE LOGUN-EDÉ.
AIÁ OIÔ EDÉ!

Ai yá yá
Desarme essa negritude que me alarmeia os poros!
Eleva-me ao patamar de sua santidade!
Protejei-me do mal olhado e daqueles seres viçosos que me rodeiam com falsos brilhantes e jóias reluzentes!

Odoiá, mãezinha...
Odoiá!
Traga a beleza de seu colar de pérolas para iluminar os meus dias!

Não, não sei da minha posição moral!
Porque existe um pouco de mim naquele que me ignora!

Oração para os surdos
por Daniel Amarhal

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