
Num dia triste de outono, folhas no chão. Arvoredos melancólicos e nenhuma poesia dissidente.
Quem sou é quem me desconheço. Sou mar em fúria.Armários escancarados com nada dentro!
Procuro reforço nas pernas dos que me projetam! Um anjo que cai me avisa que a alma está lavada, levada ao pranto da solidão inconfidente!
Quisera ser frágil para demonstrar a solicitude dos cantos. Quisera eu, mesmo que por instantes finitos, ter na mente a imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Oxum dos miseráveis, esposa de Ogum, mãe de Jesus Cristo Nazareno! A negra imagem coberta de luz, de ventanias e tempestades. Perséfone dos líricos. Maria Madalena das Rosas. Um só corpo, numa só união.
Uma oração confessa em língua criptografada. Não entendida, porém, explicada e sentida na alma.
Pureza de espíritos.Melodia dos bons!
Quisera eu que o mundo se abastacesse de um pouco de sonho e de nenhuma poesia ridícula.Quisera que a Terra fosse tenra, terna e tempestuosa.
Afrodite, aonde tú estás?
Apolo é quem me abençoa.
Zeus é quem me ilumina e a tua beleza, mulher dos lírios, dos olhos de mel e da boca carmim, é a que me entontece!
Eu quero a sorte de te encontrar na rua e te fazer feliz, mesmo que por segundos também finitos. Quero te pedir a paz, o socorro.
Quero andar na rua e ler as poesias cinzentas de Gentileza.
Misturar Kirkegaard com Chico Buarque e cantar a canção de Morfeu, sem ter Eurídice me ouvindo!
Quero te falar dos meus bens, das minhas jóias e viagens. Te catar pelo braço e te deixar sentir a brisa lhe batendo na face.
Antonia, Cecília, Marisa, Marina Morena."Marina, você se pintou..."
Você se pintou e fez de uma sombra uma obra de arte.
Nem mesmo da Vinci seria tão corriqueiro, embora, tenha estado acima do bem e do mal!
Nem mesmo Dalì no seu surreal mundo entenderia a magnitude de sua perfeição.
Nossa Senhora dos Ventos do Norte, das águas claras de Yemanjá, Iansã que comanda os ventos e as tempestades solares.
Nossa Senhora dos loucos, dos frágeis. Protetora dos imcompreendidos, compreensíveis. Moderados, defuntos! Qual é a sina daquele que morre em nome do amor?
Qual é a sina daquele que sofre em teu nome, oh Senhora?
Minha perfeita santa, travestida de nuvens e envolta em tecidos sedosos, a cortina se abre. Os sonhos se espantam.
Eu estou só no palco! Será que a minha representação vai encher de lirismo aqueles que a assistirem?
Será que a minha plenitude, meu corpo de menino e a minha solidão vai comover os cegos?
Ou terei eu que consolar a mim mesmo depois de um espetáculo de séculos, que vai me fazer crer que a vida é mesmo uma eterna lembrança?
Minha Senhora, teu manto azulado é o que me faz respirar.
Tua mão, quando toca as minhas, me prende neste mundo que não é o meu!
Quanto de mim há de ser explicado?
Eu quero pisar na serpente que me sufoca a veia. Quero prendê-la sob meus pés, assim como tú também fizeste.
Senhora das Damas e Cavalheiros arrependidos...
Tens na alma a hipérbole de meus sentimentos?
Ou sou eu que me enfeito demais e lhe transmito confiança exacerbada?
Quero me livrar de teu corpo, de tua plenitude e ir ser eu mesmo num mundo rosado, com cachoeiras lacrimosas e maçãs avermelhadas pela vergonha que Adão e Eva cometeram em teu nome, oh Jesus...
Oh Jesus! Tende piedade desta alma que vagueia pelo mundo afora, sem fome, sem dor alguma e com mil e uma estórias a contar.
Pelos bares, pelas casas. Nos hospitais psiquiátricos e nas escolas de filosofia ocidental!
Dá-me o direito, oh santa imaculada, de ser eu mesmo, entre as árvores secas e os rios de água doce!
Dá-me o direito de ser abençoado com tuas mãos e te presentear com a lavanda tirada do mais perfumoso jasmim!
Oh Madre...
Oh Perfeita...
Oh Virgem, Santa Mãe de Deus!
Cleópatra, Madonna das Rochas, Monalisa sorridente.
Santa Clara clareai minhas estradas e fazei-me, oh Santa Luzia, enxergar além-mar.
Porque de tudo me restará somente a vontade de nunca cessar minha oração.
De tudo restará meu corpo esquálido e minha alma em regozijo!
Prenda-me pelo meio de tuas pernas e não me deixes fazer besteira alguma. Porque, mesmo impávido, do que preciso nem mesmo eu sei. Só sei que o me resta é ajoelhar-me diante do teu mar, salgado, revolto, e me oferecer a ti, oh Dona dos Homens pescadores e daqueles que encontram a solução em tuas oferendas!
Senhoras...
por Daniel Amaral (24/05/2006)

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