
Venâncio era um rapaz estudioso. Falava corretamente, termos técnicos. Apesar do sotaque interiorano, sabia como conquistar um amigo. Era daquele tipo que conversava sobre tudo!Falava de presidenciários antes mesmo que estes se candidatassem. Falava de artes plásticas sem nunca ter visto um Mondrian de perto!Conhecia o Marais, Roma e toda Nova Orleans sem nunca ter saído de sua casa.Morava confortavelmente em dois cômodos. Era feliz e sabia disso!
Venâncio nunca usara nenhuma droga ilícita! Seu único vício eram as palavras!Palavras de Manuel Bandeira e de Shakespeare.Ele era aficionado por Shakespeare. Sabia de cor todos os contos do inglês. Sabia sua biografia do começo ao fim! Parecia saber até a causa mortis desconhecida do autor dos autores!
Venâncio era um insano das palavras! Fugia de seu passado como o diabo da cruz! Mas permitia-se encontrar com a sorte de nunca ter sido rico!Sentia-se capaz, mesmo debaixo do sol escaldante do Rio de Janeiro!Ele nunca havia escrito nada.Mal escrevia seu nome.Trabalhava, comia, refletia e sobrevivia mesmo das palavras!Era um Lorde, quase!
Um dia, quando estava para anoitecer, Venâncio decidiu se matar!Dizia que as palavras lhe consumiam demais! Que só elas o entendiam e só elas o maltratavam!
Por fim,depois de horas de sofrimento e memórias refesteladas, o rapaz de pouco mais de 30 anos se matou!Deixou escrito na parede a única coisa que mais apreciava e talvez a única que ele escrevera em toda vida:
_AS PALAVRAS SÃO AS PONTES QUE NOS LEVAM AO ABISMO DA MORTE! OU DA VIDA! CADA ESCOLHA É PESSOAL!
por Daniel Amaral

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