Poesias, contos e estória nenhuma!

Tuesday, November 14, 2006

o menino


"Era lindo, mas eu morria de medo..." Eu não podia me declarar. Não podia dizer
àquele menino que meu sentido só fazia sentido se ele passasse na rua, me olhasse e abrisse o seu corriqueiro sorriso. Moreno, magro. Corpo normal; nem tão baixo, nem tão alto. Pouco mais que 1m75cm, com certeza. Nunca consegui ver seus olhos, mas pareciam castanhos. Olhos castanhos são olhos dos que desejam em segredo. E ele me deseja, sinto isso...Ele me possui sem saber, sem me sentir. E me faz perder os sentidos, numa cadência de sonhos confessos! Ah, aquele menino. Quando ele passa parece que o sol se agiganta, que as árvores cessam o balanceado das folhas. O ladrilho se esfola, vira pétala diante de seu caminhar...Certo dia, trocamos virtudes. Ele, do lado de fora da vitrine, fez sinal de quem quer algo. Quando me levantei e cheguei perto, ele sumiu. Pareceu-me como miragem. Era preciso que eu me esforçasse para não enxergá-lo como ser humano. Até porque aquele menino só podia mesmo ser um anjo! Anjo que a asa quebrou e caiu bem defronte à minha percepção. Eu imaginava o tanto que seria completo se este anjo me possuísse! Ele devia ter carnes firmes, órgãos eretos e nenhum pudor! Mas, ao mesmo tempo, devia amar como quem suga um copo de vodka! Queria ter sentido a sua profusão de verbos, sua veia estupefata me entupindo as estradas de minhas entranhas! Ah, moleque... se eu te pego, te chupo e não deixo sobrar de ti nem o rastro de tuas sobrancelhas arqueadas. Boca rosada, mastiga goma. Devias tú mastigar as minhas orelhas e envenenar a tua auréola! Santo anjo do pecado! O menino que passa, que me olha e me penetra na alma como gota de chuva!
por Daniel Amaral

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