
"Era lindo, mas eu morria de medo..." Eu não podia me declarar. Não podia dizer
àquele menino que meu sentido só fazia sentido se ele passasse na rua, me olhasse e abrisse o seu corriqueiro sorriso. Moreno, magro. Corpo normal; nem tão baixo, nem tão alto. Pouco mais que 1m75cm, com certeza. Nunca consegui ver seus olhos, mas pareciam castanhos. Olhos castanhos são olhos dos que desejam em segredo. E ele me deseja, sinto isso...Ele me possui sem saber, sem me sentir. E me faz perder os sentidos, numa cadência de sonhos confessos! Ah, aquele menino. Quando ele passa parece que o sol se agiganta, que as árvores cessam o balanceado das folhas. O ladrilho se esfola, vira pétala diante de seu caminhar...Certo dia, trocamos virtudes. Ele, do lado de fora da vitrine, fez sinal de quem quer algo. Quando me levantei e cheguei perto, ele sumiu. Pareceu-me como miragem. Era preciso que eu me esforçasse para não enxergá-lo como ser humano. Até porque aquele menino só podia mesmo ser um anjo! Anjo que a asa quebrou e caiu bem defronte à minha percepção. Eu imaginava o tanto que seria completo se este anjo me possuísse! Ele devia ter carnes firmes, órgãos eretos e nenhum pudor! Mas, ao mesmo tempo, devia amar como quem suga um copo de vodka! Queria ter sentido a sua profusão de verbos, sua veia estupefata me entupindo as estradas de minhas entranhas! Ah, moleque... se eu te pego, te chupo e não deixo sobrar de ti nem o rastro de tuas sobrancelhas arqueadas. Boca rosada, mastiga goma. Devias tú mastigar as minhas orelhas e envenenar a tua auréola! Santo anjo do pecado! O menino que passa, que me olha e me penetra na alma como gota de chuva!
por Daniel Amaral

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