Poesias, contos e estória nenhuma!

Tuesday, November 14, 2006

Lembranças...


Sou uma carta psicografada. Um ente querido que se perdeu no meio das relvas e nunca mais se encontrou. Guardo ainda em mim as marcas de meu passado lânguido! Guardo as lembranças escarnecidas. A palmatória dos refugiados de alguma guerra. Creio eu que nenhum deus de mitologia nórdica entenderia os porquês de minha sapiência.
Nunca estudei. Nunca li o que me mandavam. E sempre estou ciente do que acontece ao meu redor. "Ao meu redor está deserto", tanto quanto na música de Marisa Monte. Ao meu redor tudo é claro, não calmo! Mas eu queria mesmo era entender porque que as coisas são tão estranhas diante à possiblidade de termos algum grau de parentesco com um passado não muito distante!
Eu cresci na Igreja, quase. Embora, muitas vezes, eu tenha ido para agradar à minha mãe.E isso não fez de mim um ser humano completo. Sei que Deus está acima de tudo; ele é o bem, o mal e a esperança daqueles que ainda acreditam que amar é válido! Mas ELE nunca me entendeu.
Porque nem eu mesmo me entendo. Não sei explicar, por exemplo, de onde sai essa poesia, esses contos todos que eu espalho para as pessoas.
Se sou poeta, já não sei mais! Eu escrevo as minhas vontades, devaneios. Escrevo aquilo que as pessoas perderam o medo de fazer, ou fazem com culpa! E escrevo porque me liberto dos fantasmas que me perseguem quase que 24 horas por dia!
Eu penso, escrevo com a mente! Eu vejo as pessoas e escrevo dentro de mim a trajetória delas. Quase sempre eu erro sobre as mesmas. Mas ser poeta é enxergar beleza aonde tem trevas. E, ultimamente, só tenho visto trevas na história dos seres humanos. Pena que isso seja tão pragmático, tão corriqueiro!
A minha fantasia é ser fantasiado pela mente humana. Eu olho uma pessoa e fico imaginando o que ela está pensando de mim; se quer me conhecer, se quer me furtar e até me lamber a testa.
É estranho isso, mas devaneios me corrompem.E eu queria ser Deus só por uns três minutos e entender de onde sai toda essa inspiração que me motiva a escrever, desenhar, pintar, bordar, ser artista, ser pleno, completo! Mesmo que ser completo signifique sonhar, sonhar, sonhar... Acordar e dar de cara com uma imagem no espelho que não é a minha!
Porque até meu espelho tem fantasias. Ele surrupia a minha inocência e faz dela uma ponte entre o mito e a realidade. Me transforma em monstro e me beija a face. Me vira de lado, e mais uma vez se mostra atencioso. Conserta as válvulas e dispara bem no meio do meu peito a sua flecha! Isso sim, meu espelho é cupido!
Eu não sou narcisista! Mas apaixono-me perdidamente por cada imagem que aparece nos vitrais das paredes do meu banheiro cinzento!
A minha mãe?
_Ah, mamãe era dona de casa. Papai era dono de bar. Meus irmãos eram todos casados e eu era filho adotivo. Conheci o sexo por consequência do destino. Sempre fui muito, mas muito mesmo, precoce. Tudo em mim é precoce! Li Nabokov três vezes antes de completar 20 anos.Perdi a virgindade aos 13,antes de gozar pela primeira vez. Aos 20 já morava fora de casa e ía às aulas quando eu bem quisesse! Odeio química, física, matemática. Amo as palavras e é por causa delas que transformo minha vida em poesias, contos e estória nenhuma.
Sou um livro aberto, de páginas que viram sozinhas por mero acaso do incidente!
Uma menina, certa vez, me beijou.Eu não gostei! Não me arrepiei como quando me arrepiei com um homem. Ele era lindo, mas tinha o peito muito estufado. Casou-se, teve três filhos e nunca mais me viu! Dia desses, o encontrei numa padaria. Ele estava gordo, com os braços tatuados. Disse-me que naquela hora bateu-lhe a lembrança de nosso despudorado prazer. Informei a ele sobre a intenção de ser feliz, nunca, jamais, com aquele homem, agora feio e sem graça.
A minha audácia maior foi informar-lhe que eu estava muito bem, que casaria em breve com um negro de 1m90, e um corpo escandaloso.
Coitado!
Acreditou!
De fato, eu também relembrei nosso beijo. Aquele homem me tocava como quem toca uma flauta doce. Era gostosa a sensação de ser penetrado por um macho de pele rosada e glúteos firmes. Mas a lembrança ficou na padaria.
Cheguei em casa e voltei a escrever. Escrevi sobre ele, claro! Sobre como eu era feliz e nunca havia percebido! Aquele homem havia me feito voltar ao passado, relembrar a primeira vez que senti a dor de ser arrombado. Eu perdi todas as minhas forças, bambeei as pernas por cinco dias seguidos. A dor virou tesão, mas antes era dor mesmo! E eu não poderia esquecer aquela estória. Não poderia esquecer que um dia fiquei triste porque descobri que aquele tosco engravidara uma mulher de seios murchos e ancas nervosas! Ai , que ódio daquele dia. Daquela mulher ridícula de branco na porta da igreja, quem viu até pensou que a retardada era virgem. Mal sabia ela que ele me procurava. Também, eu o desejei ardentemente, mas fui tomado por um soco no estômago pela notícia que se espalhou pelo bairro; como é ruim morar em bairro pequeno!
Ah, aquele homem...ele não devia ter aparecido naquela padaria; não devia ter falado comigo. Mesmo se não tivesse falado, sua lembrança voltaria na hora que cruzamos o olhar. Era lindo aquele olhar; olhos azuis penetrantes!
Ai, a minha escrita se perde. As palavras me sugam e ele não me sai da cabeça.
Queria ter o poder de transformar sonho em realidade e então seria feito de mim uma espécie de domador de feras no cio!
Ele estava no cio. Senti isso! Certamente não come a mulher há séculos. Ou será que está solteiro e se divertindo às custas de algum viadinho do cú pelado?
Não sei! Não sei! Não sei!
Mas eu quero saber!
Preciso voltar àquela padaria; preciso reencontrá-lo,entregar-lhe o meu endereço.
Preciso mais uma vez que ele se sinta capaz de me fazer feliz. De gozar em mim e deixar escorrer a lágrima do arrependimento!
Lembranças de um poeta

por Daniel Amaral (24/05/2006)

No comments: