
Ontém eu apaguei todas as respostas dadas a lápis para aquelas questões mais frequentes no meu cotidiano!Rabisquei com caneta as paredes do meu quarto e me desesperei com o resultado:_ uma instalação multifacetada de órgãos perfilados em hematomas!Ontém eu me livrei de todas as cartas de amor, ridículas, que me escreveram!Surrupiei o perfume açucarado de minha irmã e o despejei no assento sanitário!Ontém eu me livrei, enfim, do meu passado! E minha alma não entristeceu-se com a escuridão que se apossou de minha sala de estar.Nem mesmo o maldito quadro pendurado na parede_ uma cópia lavada de "Las demoiselles D'Avignon, de Picasso_ se submeteu ao vazio daquele 'ambiance'.Nem mesmo a televisão se desligou, ficou apenas muda... com uma imagem congelada na tela.Um negro sentimento!
Fase negra
por Daniel Amaral

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